"Umbigo", estréia de hoje, discute Tolerância
Written by Beto Mettig Thursday, 29 October 2009 17:13
A coreografia “Umbigo” estréia hoje (30/10) no FIAC, levando para cena duas personagens que, diferentes em seu histórico, encontram-se num caos absoluto.
Imersos em um mundo onde alguns já desistiram de tentar, passam a compreender, cada uma da sua forma, que talvez os defeitos e diferenças individuais não sejam totalmente diversos.
O espetáculo é dirigido por Dejalmir Melo, que também divide o palco com Jorge Santos. Ele poderá ser visto hoje (30/10, às 20h) e amanhã (31/10, às 19h), no Teatro SESC/SENAC Pelourinho. Nessa entrevista, Dejalmir fala um pouco da sua concepção do espetáculo. Confira:
FIAC Bahia - De onde surgiu o título “Umbigo”?
Dejalmir Melo - Acho que tolerância tem muito a ver com auto conhecimento, aceitação e compreensão consigo mesmo e com o outro. E, justamente por isso, o “Umbigo”, nossa primeira fonte de ligação desde que estamos ainda em gestação, permite a sustentação e união das partes do corpo humano que vão verticalmente desde esse ponto central, para baixo até os pés e para cima até o topo da cabeça. E também por ser esse concentrado de energia onde se gera os desejos, nos impulsionando à sua concretização.
O espetáculo fala de tolerância. Que aspectos dessa temática são abordados na coreografia?
Partimos do estado mais bruto do que para mim seria tolerância e/ou o seu oposto: a falta do seu conhecimento e prática que tem por consequência a reação desmedida, relações de extrema intensidade onde a medida de força e poder tornam-se referência. Partimos daí para um aspecto da tolerância que se dá de forma passiva, tornando-se quase que imperceptível diante da sociedade. Situações a que são submetidos indivíduos que possuem deficiência física ou psicológica, uma minoria de tolerantes que precisam seguir adiante em suas vidas, tendo que enfrentar desafios diários em seu próprio ambiente. E também o cotidiano, que nos apresenta situações que nos remete à superação e resistência diante de uma imensa quantidade de provas a que somos submetidos diariamente.
Qual é a importância da trilha sonora para o espetáculo? Como essa relação funciona?
Acredito que a trilha sonora deve ter realmente uma relação real com o que está sendo representado na cena, fazendo uma intersecção entre todos os elementos cênicos e formando uma só mensagem naquele ambiente - ou simplesmente pode ser que não exista nenhuma relação e que a trilha seja somente um fundo musical que acompanha a representação. Nesse trabalho, escolhi músicas do compositor violonista norte-americano William Ackerman, que conheço desde muito tempo. E acho que a sua música nos remete a um estado de concentração e de plena serenidade. Ao mesmo tempo, na coreografia permite um diálogo interessante entre cenas fortes, casando também perfeitamente com outras cenas sensíveis e mais calmas.
Você já havia trabalhado com Jorge Santos antes?
Havíamos trabalhado juntos num projeto com o BTCA, alguns meses antes de começarmos a ensaiar. Felizmente, durante esse processo, tive oportunidade de conhecer um pouco mais da sua personalidade e potencial artístico. Compartilhei com ele algumas idéias que tinha já a respeito de “Umbigo” e decidimos ir finalmente para o estúdio colocar em prática e combinarmos nossas experiências.
Você vem de um historio de trabalhos com grupos importantes, como BTCA, Grupo Corpo e Quasar Cia. De Dança. “Umbigos” reflete essa experiência em algum nível?
Além dessas companhias citadas no Brasil, trabalhei também por alguns anos com outras no exterior. Tive realmente inúmeras experiências maravilhosas e insubstituíveis em todos esses lugares por onde passei até agora. De fato, não me faltou material para desenvolver tanto esse trabalho quanto outros que me inspirarão mais tarde. Mas “Umbigo” não fala somente sobre mim e sim da necessidade de falar sobre a “tolerância”. Tenho sentido falta e dificuldade de identificá-la ultimamente entre nós mesmos.
O que tem achado da programação do FIAC Bahia este ano?
Tenho me concentrado muito na estréia de "Umbigo" no FIAC e, associado a outros trabalhos que desenvolvo, não tenho tido tempo para assistir à toda programação do festival. Assisti, na última terça-feira, aos espetáculos “J’accuse” e “ Le prix, la porte”, e fico muito feliz com a oportunidade de estar em minha cidade e poder ter informações sobre o que está sendo produzido tanto aqui quanto em outros lugares. Acho importante essa integração que permite compartilhar experiências e inspirações para o nosso trabalho, enquanto artistas que somos. Agradeço a oportunidade de estar no meio desse movimento e poder representar a arte que escolhi como veículo para comunicar com o mundo.




